Há países que nasceram com uma localização privilegiada. O Azerbaijão nasceu com uma localização que parece ter sido escolhida por alguém que queria garantir problemas para várias gerações. Enfiado entre o Cáucaso, o mar Cáspio, a Rússia, o Irão e as grandes rotas que ligam Europa e Ásia, o país passou séculos a ser desejado por impérios, disputado por potências e atravessado por interesses alheios. Depois descobriram petróleo em quantidades suficientes para tornar tudo ainda mais interessante. O Azerbaijão passou, assim, de encruzilhada imperial a encruzilhada energética — porque aparentemente estar no caminho de toda a gente não era suficiente: também era preciso ter petróleo debaixo dos pés.
Disputas imperiais no Cáucaso e a divisão do território azeri
A posição geográfica explica boa parte da história. A região foi sucessivamente influenciada por persas, árabes, turcos, mongóis e russos, enquanto diferentes dinastias lutavam pelo controlo do Cáucaso. No século XIX, a expansão do Império Russo para sul alterou definitivamente o equilíbrio regional. Os tratados de Gulistão, em 1813, e Turkmenchay, em 1828, colocaram grande parte dos territórios azeris do Cáucaso sob domínio russo, enquanto a Pérsia manteve os territórios azeri que hoje fazem parte do norte do Irão. A divisão política não apagou a continuidade cultural e linguística dos povos azeris, mas criou uma fronteira que continuaria a ter consequências muito depois de os impérios responsáveis por ela desaparecerem.
E então apareceu o petróleo. Ou, mais precisamente, o petróleo decidiu que Baku seria um excelente lugar para complicar ainda mais a História. A exploração petrolífera em grande escala cresceu extraordinariamente na segunda metade do século XIX, transformando Baku num dos maiores centros petrolíferos do mundo. A cidade atraiu empresários, trabalhadores, capitais e aventureiros de várias partes do Império Russo. Famílias industriais como os Nobel e os Rothschild investiram na região, enquanto a produção aumentava rapidamente. Baku tornou-se uma espécie de capital mundial do petróleo — uma cidade onde o futuro cheirava a riqueza e, provavelmente, também bastante a petróleo.
A República Democrática de 1918, a era soviética e o conflito regional
Quando o Império Russo entrou em colapso, o Azerbaijão aproveitou a oportunidade para tentar construir o seu próprio Estado. Em maio de 1918 foi proclamada a República Democrática do Azerbaijão, uma experiência breve mas historicamente importante. O novo país introduziu instituições parlamentares e, entre outras medidas, reconheceu o direito de voto às mulheres em 1918. O problema era que a independência tinha chegado precisamente a uma região onde ninguém parecia disposto a deixar os outros respirar em paz. Em abril de 1920, o Exército Vermelho entrou em Baku e a república foi derrubada. O Azerbaijão passou a integrar o sistema soviético e, a partir de 1936, tornou-se uma das repúblicas da União Soviética.
Durante o período soviético, o petróleo continuou a ser fundamental. Baku forneceu enormes quantidades de combustível à União Soviética, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial. Mas a grande ironia histórica é que o recurso que durante décadas atraíra impérios estrangeiros acabou por sobreviver aos próprios impérios. Quando a União Soviética começou a desintegrar-se, o Azerbaijão recuperou a independência em 1991. Só que a liberdade política veio acompanhada de um problema antigo, agora ainda mais perigoso: Nagorno-Karabakh. A região, internacionalmente reconhecida como parte do Azerbaijão, era habitada maioritariamente por arménios e tornou-se o centro de um conflito devastador entre Azerbaijão e Arménia.
A guerra deixou milhares de mortos e enormes deslocamentos populacionais. O conflito permaneceu sem solução durante décadas, apesar de várias tentativas de negociação. Em 2020, uma nova guerra alterou significativamente o equilíbrio territorial e, em setembro de 2023, o Azerbaijão lançou uma operação militar que levou à capitulação das forças de Nagorno-Karabakh. A população arménia da região abandonou em grande parte o território nas semanas seguintes. As consequências humanitárias, políticas e jurídicas continuam a ser objeto de disputa e acompanhamento internacional, tornando esta uma das partes mais delicadas da história recente do país.
Estratégia energética, oleodutos e o papel do Azerbaijão moderno
Enquanto as fronteiras eram discutidas e os mapas continuavam a dar trabalho, o Azerbaijão percebeu que possuía outra arma bastante menos explosiva, mas economicamente poderosa: os oleodutos. Após a independência, o país procurou desenvolver rotas de exportação que reduzissem a dependência das antigas infraestruturas soviéticas. O resultado mais conhecido foi o oleoduto Baku–Tbilisi–Ceyhan, inaugurado em 2006, que atravessa o Azerbaijão, a Geórgia e a Turquia até chegar ao Mediterrâneo. A infraestrutura permitiu transportar petróleo do Cáspio para os mercados internacionais sem atravessar território russo. Mais tarde, os gasodutos do Corredor Meridional reforçaram também a importância do país como fornecedor de gás para a Europa.
E aqui está talvez a grande ironia do Azerbaijão moderno. Durante séculos, a sua localização foi uma vulnerabilidade: demasiados impérios queriam controlar aquele pedaço do Cáucaso porque ele ficava precisamente onde não devia deixar de estar. No século XXI, essa mesma localização transformou-se numa vantagem estratégica. Baku já não precisa de receber exércitos para chamar a atenção das grandes potências. Basta abrir um oleoduto, um gasoduto ou uma nova rota comercial e, de repente, toda a gente volta a olhar para o mapa.
Hoje, o Azerbaijão continua a viver entre geografias e interesses que ultrapassam largamente as suas fronteiras. O petróleo e o gás continuam importantes, enquanto Baku procura afirmar-se como centro de transportes, energia e comércio entre a Ásia Central, o Cáucaso e a Europa. A velha encruzilhada continua, portanto, no mesmo sítio — apenas mudou o tipo de viajantes. Já não são apenas soldados, mercadores e imperadores. Agora também chegam investidores, petroleiros, diplomatas e oleodutos.
No Azerbaijão, a História nunca permitiu que a geografia fosse apenas geografia. Primeiro vieram os impérios, depois vieram as fronteiras, depois veio o petróleo e, finalmente, vieram os tubos para levar o petróleo até ao resto do mundo. O país continua no cruzamento de tudo — e, no Cáucaso, talvez essa seja precisamente a única coisa que nunca mudou.

